São denominados países sem costa marítima, países interiores ou países encravados aqueles que não têm saída para o mar ou oceano. Note-se que esta definição de mar não inclui os mares que não estão ligados aos oceanos, pelo que o mar Cáspio e o mar de Aral, ao serem lagos endorreicos, permitem que alguns países que neles têm costa sejam considerados países sem costa marítima. Os países banhados pelo mar de Aral e/ou mar Cáspio são: Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão e Turquemenistão.


O caso da Bolívia e a saída para o mar

A Bolívia é um país que já possuiu, no século XIX, saída para o mar, mas a perdeu na Guerra do Pacífico com o Chile. Ao final do conflito, em 1883, o Chile incorporou uma grande parte do território boliviano, incluindo a porção do território da Bolívia que garantia ao país acesso ao mar. Desde então, a Bolívia e o Chile têm relações tensas em torno dessa questão, pois a Bolívia deseja recuperar sua saída ao mar, enquanto o Chile não pretende ceder o território ganho com a Guerra. Em 2018, a Bolívia levou a questão até o Tribunal Internacional de Justiça em Haya, na esperança de que a corte determinasse que o Chile deveria negociar o acesso ao mar com a Bolívia. A corte entretanto recusou fazê-lo, e a Bolívia foi derrotada por 12 votos contra 3 em uma resolução afirmando que o Chile não é obrigado a negociar um acesso soberano ao mar para a Bolívia.
A questão do acesso ao mar é tão importante para a Bolívia que o país celebra todo ano, no dia 23 de março, o Dia do Mar – ocasião na qual é lembrada a necessidade de o país recuperar o acesso a águas oceânicas. A cidade alvo das demandas bolívianas é Antofagasta, que fez parte da Bolívia até a Guerra do Pacífico e passou a ser internacionalmente reconhecida como parte integrante do Chile apenas com a assinatura do Tratado de Paz e Amizade entre Chile e Bolívia, em 1904. Desde a eleição de Evo Morales em 2006, essa questão voltou a ser central na política boliviana, tendo em vista o interesse de Evo no tema.

“Do Guardian – A luz do sol cintila sobre o lago, uma verdadeira extensão cênica no teto da América do Sul, enquanto a Marinha boliviana amarga a cada dia a saudade de seu litoral. Os marinheiros marcham pela doca. Os mecânicos se ocupam dos barcos-patrulha. Um capitão treina seu cachorro para recuperar objetos na água. É essa a rotina desinteressante da frota de marinheiros que não tem acesso ao elemento que justifica a sua própria existência: o mar.

O objeto do desejo desses homens, o Oceano Pacífico, repousa além dos picos nevados andinos para o oeste. A força naval boliviana encontra-se confinada no Lago Titicaca, 3.800 metros acima do nível do mar. “Nunca vi o mar, mas o dia em que o vir, espero que seja o mar boliviano”, suspira o marinheiro Wilmar Camargo,18 anos.

As palavras do marinheiro estão entaladas na garganta de toda uma nação. A Bolívia, país mais pobre da América do Sul, perdeu sua costa na guerra contra o Chile entre 1879– 1884 e está disposta a recuperá-la. La Fuerza Naval Boliviana existe para manter viva esta esperança e cultiva uma consciência marítima para quando acabar o “enclaustramiento”. “O mar é nosso de direito, recuperá-lo é nosso dever”, é o que diz uma placa na minúscula base em Copacabana, um posto do 4º distrito naval localizado em San Pedro de Tiquina, na costa sudoeste do Lago Titicaca.

Ilustração mostra o território boliviano antes da guerra com o Chile.

Quem vê a situação de fora considera a Marinha boliviana uma verdadeira idiossincrasia, um brinquedo sem possibilidade de futuro encravado nas montanhas. Os chilenos mais espirituosos fazem piada da situação convidando os bolivianos a virem à praia. Entretanto, o 150º aniversário da Guerra do Pacífico pode dar uma chance à pobre frota de barcos de patrulha e catamarãs de ganhar mais credibilidade.

Uma força de 50 homens e quatro barcos-patrulha devem se juntar à missão de paz da ONU no Haiti, a primeira missão internacional deste porte para a Marinha boliviana. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, um aliado do presidente socialista da Bolívia, Evo Morales, está patrocinando uma reforma geral da Força Armada, incluindo treinamentos em uma academia para oficiais.

O Chile, talvez de maneira mais significativa, amoleceu em sua postura de não negociar com o vizinho pobre. A presidente Michelle Bachelet declarou que todos os assuntos territoriais foram acordados em um tratado no ano de 1904, mas indicou que estaria disposta a negociar um acesso costeiro. Almirantes de ambos os países trocaram visitas recentemente. “Existe uma injustiça histórica clara e a Marinha boliviana foi criada para servir como um protesto perante o mundo inteiro”, apontou o capitão Remi de la Barra, oficial sênior da marinha. “Somos perfeitamente qualificados para navegar em qualquer mar do mundo e não irá demorar muito, se Deus quiser, para navegarmos no nosso próprio mar.”

Os mais céticos não acreditam em mudanças. “Existem supostamente conversas sobre o assunto, mas nunca vi qualquer avanço ou sinal de mudança”, declarou Gustavo Fernández, ex-ministro das Relações Exteriores e analista político. “Tudo continua calmo como sempre foi e acredito que vai continuar assim.”

Fadada ao fracasso ou não, a saudade que a Bolívia sente do mar não diminui. Uma costa iria aumentar o orgulho nacional e garantir soberania econômica. Assim como os presidentes que o antecederam, Morales discursa na frente de um mapa antigo que mostra o litoral boliviano antes de 1879. Ele escalou marinheiros em uniformes brancos para sua guarda pessoal de honra.

Honra

Para a Marinha boliviana, hoje com 5 mil homens, a honra reside em revestir o rancor histórico, missão claramente delineada em 1963, quando se tornou um órgão separado das Forças Armadas no país. Além do vasto Lago Titicaca, a Bolívia possui mais de 7 mil quilômetros de rios navegáveis que necessitam constante patrulhamento. A Marinha intercepta contrabandistas, entrega suprimentos a áreas rurais remotas e resgata pessoas e animais de corte durante as enchentes. “Existe muito que fazer”, informa o capitão Ramiro Pardo, um comandante em San Pedro de Tiquina. Os marinheiros auxiliaram arqueólogos a explorar o lago em busca de ruínas incas e quando a Fifa proibiu partidas em estádios em grande altitude – uma verdadeira ameaça aos estádios bolivianos – a Marinha demonstrou a prática de exercícios nos picos andinos a fim de mostrar que as preocupações de saúde da Fifa eram infundadas.

Tais missões ecléticas não atrapalharam a pacata rotina em San Pedo de Tiquina, um idílio de tranqüilidade típico de um cartão-postal. Os oficiais utilizaram agasalhos e junto com alguns cadetes, correram atrás de uma bola. As únicas embarcações que flutuavam no lago estavam recheadas de turistas. “Apesar de estar confinada a um lago montanhoso cheio de trutas, a Marinha está pronta para reaver um pedaço do Pacífico”, declarou o capitão Ramiro Arispe. A missão para o Haiti necessita de muitos preparativos. “Sobreviver em águas infestadas com tubarões é algo com que não estamos acostumados. Todavia, estamos prontos para o mar aberto”, finalizou.”
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