Um passeio no cemitério um lugar onde aviões velhos cozinham debaixo do sol do deserto do Arizona, esperando para serem reciclados ou transportados para os aliados dos norte-americanos. Conteúdo reproduzido do site Vice. 


Os EUA contam atualmente com 5.448 aeronaves ativas, de longe a maior força aérea do mundo. A Rússia vem em segundo lugar com um pouco menos da metade desse número, mas ainda bem menos aviões do que os EUA têm armazenados em locais de manutenção. Visitei o que é carinhosamente chamado de “o Cemitério” da Base da Força Aérea Davis-Monthan em Tucson, Arizona, para ver de perto o que provavelmente é a segunda maior força aérea do mundo.
“Temos cerca de 4 mil aeronaves aqui”, me disse a oficial de Relações Públicas Teresa Pittman, “mas esse número muda todo dia”.
O Cemitério surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, como um tipo de estoque para uma porrada de aviões. Alguns deles estão cozinhando no deserto do Arizona há mais de meio século. O clima perfeito, além do trabalho dedicado do 309º Grupo de Manutenção e Regeneração Aeroespacial, mantém a maioria das aeronaves em condições de voo – ou algo próximo disso. Agora, com a retirada militar do Iraque e Afeganistão, o Cemitério está de novo lotado com aeronaves que serão desmontadas, desativadas, vão virar peças de museu ou serão vendidas para aliados estrangeiros.
Esse Seahawk em particular era especial. “Ele tem mais horas de combate que qualquer aeronave da Marinha”, me disse o piloto, um capitão-tenente. (Pittman pediu que eu não publicasse o nome dele por razões de segurança.) O piloto e a tripulação que trouxeram o helicóptero eram os mesmos que voaram no Seahawk em combate. Eles eram do esquadrão Lobos Vermelhos, um dos dois grupos da Marinha de apoio às Forças Especiais. Perguntei ao capitão que missões ele se lembrava envolvendo a aeronave.
“Normalmente, éramos entre duas e oito aeronaves de rotor. Tínhamos AC-130 armados fazendo a apoio, os Apaches. Carregávamos grupos de ataque. Às vezes pousávamos a pouca distância do alvo, e eles seguiam a pé. Às vezes pousávamos em cima do alvo, e eles faziam um ataque surpresa. Às vezes alvos que fugiam. Nós os rastreávamos e dizíamos para as tropas no solo onde eles estavam.”
Quando perguntei qual tinha sido a missão mais importante para ele, o piloto contou uma operação que liderou em 11 de setembro de 2009. “Pegamos um membro do alto escalão da Al-Qaeda, considerado um dos caras do mal”, ele respondeu. “Ele tinha feito algo que feriu e matou soldados americanos e da coalizão. Foi propício porque era o aniversário do ataque ao World Trade Center.”
Como muitas aeronaves aqui, a tripulação escreveu mensagens no Seahawk para comemorar o voo final. “Infelizmente”, o piloto acrescentou, “devido ao corte de orçamento , os dois esquadrões foram limados. É por isso que estamos voando nessa aeronave, a tirando de circulação. É um dia triste. Entendo que vão substituí-la por uma aeronave nova, mais barata de operar e manter. Progresso, acho. Isso tem que acontecer”.
A ligação quase antropomórfica das tripulações com suas naves era evidente em toda parte. As mensagens escritas em várias fuselagens diziam coisas como “obrigado pelos bons momentos!” Uma trazia simplesmente a frase “último voo”, com um nome e uma data. Às vezes era algo mais picante, como uma referência ao “Mile High Club”.
Pittman falou sobre as ligações que recebia regularmente de ex-membros da tripulação que querem visitar seus antigos pássaros. “Vejo mais conexão dos chefes da tripulação, que preparam as aeronaves para voar”, ela apontou. “Recebo muitas ligações de chefes de tripulação que querem ver seus velhos aviões. Às vezes podemos ajudá-los, às vezes não.”
Deixamos a pista e caminhamos entre as fileiras aparentemente intermináveis de aeronaves cuidadosamente alinhadas. Havia uma história onde quer que olhássemos. Nas pinturas no nariz dos aviões, o recuo para o politicamente correto era aparente com o tempo – não há mais namoradas seminuas e Dolly Partons peitudas hoje em dia. Mas caveiras sorridentes ainda são kosher. Havia a grande águia e decalques de bandeiras americanas em alguns dos transportes usados nas semanas febris após o 11 de Setembro. O velho helicóptero Army One do presidente Eisenhower enferrujava num canto. Havia campos de bombardeiros B-52 cortados e desmontados. Em certo momento, eles foram a primeira linha de defesa dos EUA contra a União Soviética; agora são as baixas do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START em inglês). Seu desmembramento é acentuado para que os satélites russos possam confirmar sua destruição.
Muitos F-15s mostram marcas de abates das primeiras guerras. Abaixo de uma das cabines, uma pequena bandeira iraquiana estava pintada, coberta com as palavras “MIG-23 KILL JAN 28 1991”. O combatente tinha sido pilotado pelo capitão Don “Muddy” Watrous no início da primeira Guerra do Golfo. Ele tinha se separado das outras aeronaves do seu esquadrão quando viu um MiG iraquiano perto da fronteira com o Irã. O inimigo desviou de três mísseis antes que o quarto atingisse o alvo.
Como “Muddy”, quase todos os nomes de pilotos pintados com estêncil abaixo das cabines tinham um nome de guerra, como “Wig”, “Cheese” e “Snap”.
“Os nomes são um rito de passagem”, um dos pilotos explicou, acrescentando que os melhores e mais queridos são de natureza depreciativa.
Em um hangar, passamos por alguns F-16s encaixotados com destino a Indonésia; ao lado, aeronaves similares estavam sendo transformadas em drones. O rádio tocava música country enquanto os mecânicos se moviam graciosamente entre as fuselagens.
Em seguida, visitamos dois técnicos trabalhando num A-10 Warthog. Um dos mecânicos lembrou de ver um desses pássaros explodindo tanques durante a Operação Liberdade do Iraque. Os A-10 são conhecidos por serem extremamente robustos, e ainda assim, com o interior exposto, eles parecem bastante delicados. O técnico mostrou um fio longo e fino que passava pelo maquinário. Parecia algo insignificante, mas ele explicou que aquilo era como um calcanhar de Aquiles do avião. Se aquele pequeno fio fosse cortado, o avião ficava incapacitado.
“O que vai acontecer com esse A-10?”, perguntei.
“Ele vai para o triturador”, respondeu Pittman. “Ele pode virar um carro ou uma lata de alumínio.”
Nossa última parada foi num hangar a céu aberto, onde as aeronaves estavam sendo consertadas e equipadas com geradores de oxigênio a bordo. No alto, uma família de corujas tinha feito um ninho. Os técnicos construíram uma caixa ao redor dele para impedir que os filhotes caíssem. Vimos o macho empoleirado numa viga de aço. Ele era a mascote perfeito para o Cemitério – outro exemplo de tecnologia de voo histórica.
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Fonte/ site Vice – fotos divulgação