Cananéia é por alguns considerada a cidade mais antiga do Brasil (5 meses antes da fundação de São Vicente), no extremo sul do estado, guarda os segredos de Ararapira: Vila fantasma: Após perder todos os moradores, aldeia vira ponto turístico. 

Cananéia é um município brasileiro no litoral do estado de São Paulo. Pertence à Mesorregião do Litoral Sul Paulista e Microrregião de Registro e localiza-se a sudoeste da capital do estado, distando desta cerca de 265 km. Ocupa uma área de 1 242,01 km², sendo 2,3677 km² estão em perímetro urbano, sendo o município mais meridional do estado de São Paulo e sua população em 2018 foi estimada em 12 539 habitantes sendo que em 2018 era o 340º mais populoso do estado paulista. O município é formado pela sede e pelo distrito de Ariri.
A sede tem uma temperatura média anual de 19,9 °C e na vegetação do município predomina a mata atlântica, com trechos de mangues e restingas ao longo de sua faixa litorânea. Com uma taxa de urbanização da ordem de 80%, o município contava, em 2009, com onze estabelecimentos de saúde. O seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,720, considerando alto.
Cananéia é por alguns considerada a cidade mais antiga do Brasil (5 meses antes da fundação de São Vicente) mas por falta de documentação oficial que comprove tal fato, São Vicente é oficialmente a cidade mais antiga do Brasil. Atualmente, o Centro Histórico de Cananéia ainda preserva os estilos arquitetônicos adotados pelas primeiras casas desde o período colonial até o final do século XIX. As praias também atraem milhares de pessoas na alta temporada, sendo que na Ilha do Cardoso há várias trilhas e cachoeiras, além de vários sítios arqueológicos. As festas, a culinária e o artesanato também são atrativos à parte da cidade, cujas principais fontes de rendas são a pesca e o turismo.

 

Ararapira: Vila fantasma: Após perder todos os moradores, aldeia vira ponto turístico

Ao som da viola e da sanfona, a comunidade se reunia na praça central, no início do século, para dançar fandango. Era um momento solene para os mais de 500 moradores de Ararapira, uma vila situada a leste do Estado do Paraná. Solene e arriscado, principalmente para as solteiras. Não podiam recusar um convite para bailar. Quem ousava fazê-lo levava um tapa no rosto. Do pai ou do pretendente.
Hoje muitos desses personagens estão sepultados, lado a lado, no cemitério do vilarejo, o único testemunho dos tempos de folguedos na rua. Ararapira tornou-se uma cidade fantasma. Seu último habitante faleceu há seis meses: a sexagenária Diva Barca morreu afogada, em maio, quando seguia para Paranaguá, distante duas horas de barco – ou 80 quilômetros por terra. Uma tempestade virou a canoa. A casa da derradeira moradora permanece intacta e fechada desde o dia de sua morte. As residências que não estão abandonadas exibem portas e janelas cerradas. A Igreja de
São José, construída no fim do século XIX, ainda conserva os bancos de madeira e as imagens no altar singelo. Mas não há missas, nem padres, nem fiéis.

 

O vilarejo foi fundado em 1850, quando quatro famílias se estabeleceram na região, um beco geograficamente estratégico: de um lado do braço de mar está Ararapira, no Paraná; de outro, a Ilha do Cardoso, em São Paulo. No apogeu, entre as décadas de 40 e 50, a vila oferecia até tecido inglês no armazém. O forte era a comercialização de farinha, arroz e peixe seco, levados para os municípios paranaenses de Guaraqueçaba e Paranaguá. O lugar era também reduto de bêbados, que de tempos em tempos lotavam a única cela da delegacia. Na festa do padroeiro, São José, em 19 de março, eles passavam dos limites.
Ararapira mergulhou numa irremediável decadência com a construção do Canal do Varadouro, em 1953, para a formação da ilha artificial de Superagüi. Em 1989 a área foi transformada em parque nacional e dez anos depois declarada Patrimônio Natural da Humanidade. A região é uma das mais bem conservadas da Mata Atlântica. Integra o Complexo Estuário Lagunar de Cananéia–Iguape–Paranaguá. O rigor das leis de preservação e a inexistência de projetos turísticos restringem as possibilidades de sobrevivência no local.
A situação persiste desde que as águas invadiram o vilarejo, forçando famílias a seguir para outras cidades. Muitos comerciantes e pescadores tornaram-se favelados, mas fazem questão de ser sepultados em Ararapira. Foi o caso de Maria Pires, enterrada em agosto, aos 87 anos. O cemitério é o único elo entre a vila e seus ex-habitantes. Dias antes do feriado de Finados, eles capinam a trilha. Retornam no dia 2 para acender velas e rezar para os mortos. E partem de novo. Fonte – cidadeilustre.blog

 
Erosão

A primeira visão de vila é de uma encosta coberta de tijolos desmoronados. No Marujá, uma comunidade no interior do Parque Estadual da Ilha do Cardoso no território paulista, Ezequiel Oliveira, dono de uma pousada e ex-morador de Ararapira, conta que a erosão já levou mais de 70 metros da planície costeira. “A água levou mais de vinte construções que havia ali”, diz ele, lembrando que no meio dos desmoronamentos desapareceram prédios históricos da vila. “Os armazéns que abasteciam a região sumiram do dia para noite”, conta Oliveira.
O pescador Rafael Silveira, outro ex-morador da vila e também residente no Marujá, a dez minutos de voadeira de Ararapira, tenta explicar a extensão de terra que desapareceu. “Quando eu era criança, atirava uma pedra para uma ilha em frente com as mãos. Hoje, nem com a ajuda de um estilingue essa pedra iria para o outro lado”, afirma.
A velha igreja construída no século XVIII na vila permanece com as portas abertas. Um dos sinos de bronze ainda pode ser badalado. O outro desapareceu. A imagem original de São José, que datava da época da fundação da igreja, foi roubada no início de 2000, segundo ex-moradores, e outra foi colocada no lugar.
Na região, é possível ver garças, guarás vermelhos, sabiás, tucanos-de-bico-preto, papagaios-de-cara-roxa e outras dezenas de espécies. A fauna é diversa e, segundo relatos dos nativos, já foram avistados pacas, veados, cutias, porcos-do-mato, além de cobras caninanas, jararacas e corais. Outros frequentadores são primatas da espécie mico-leão-da-cara-preta, ameaçada de extinção. A flora é riquíssima nos manguezais e nos terrenos arenosos. Figueiras, maçarandubas e dezenas de espécies de bromélias e orquídeas compõem o ecossistema.

Vândalos
Os velhos caminhos da vila foram tomados pela mata e se transformaram em trilhas. Ao longo delas, os vestígios da passagem indesejada: latas de cerveja, garrafas plásticas, embalagens de alimentos e pedaços de tecidos de barracas. As construções mais antigas no interior de Ararapira estão abandonadas e invadidas pela mata. Moradias mais recentes ainda são visitadas ocasionalmente pelos proprietários e dispõem de geradores. Jozias, que viveu a infância na vila após ser adotado por um casal, mora em uma destas casas sozinho. “Andei o mundo e voltei para cá. Isto aqui é meu agora e aqui vivo tranquilo. Estou no paraíso e só me falta uma Eva”, diz o homem que não quis ser fotografado.
A presença dele, no entanto, é quase imperceptível. De acordo com moradores da região, o homem sempre está presente nos vilarejos mais próximos e quando está em Ararapira, quase não anda pela vila. Jozias, que não revelou seu sobrenome, não quer falar sobre o local. Queria saber quanto o jornalista lhe pagaria por uma entrevista. Informado que a norma é não pagar aos entrevistados, ele voltou para o interior da casa onde vive há cerca de dois anos, ao lado de dois cachorros.
No final de uma trilha fechada, o cimento enegrecido de túmulos recobertos com limo mais parece um cenário de filme. O único cemitério da região ostenta lápides do final do século XIX. Alguns túmulos foram violados e crânios e esqueletos estão expostos.

História
São José da Marinha de Ararapira, primeiro nome da vila, foi o mais importante entreposto comercial entre a capital paulista e Curitiba na rota marítima entre as duas capitais, no início do século XX. Bem antes, no entanto, os primeiros portugueses que chegaram ao Brasil já conheciam a área. Hans Staden, um mercenário alemão que participou de combates nas capitanias de São Vicente e Pernambuco no século XVI, relatou no livro Duas Viagens ao Brasil, editado em 1557, que em um dia de tempestade de 1547, ao se aproximar do local onde hoje está localizada a vila abandonada, “aproximou-se uma canoa repleta de homens, dentre os quais estavam dois portugueses, que nos perguntaram de onde vínhamos”.
Após uma disputa entre São Paulo e Paraná pela vila, em 1922 ocorreu a homologação de um laudo arbitral de divisas pelo Congresso Nacional, considerando a área como território paranaense. Ponto estratégico de abastecimento, em 1930, o povoado já contava com energia elétrica fornecida por um motor a diesel, coisa rara até em áreas dos grandes centros urbanos, e sediava um cartório e uma delegacia, além da velha igreja construída no final do século XIX.
Segundo relatos de historiadores, a vila teve seu ápice de desenvolvimento entre as décadas de 40 e 50. Depois, Ararapira começou a enfrentar o declínio, com aberturas de estradas ligando o Paraná e São Paulo e a escavação do canal do Varadouro, para ligar a região lagunar de Cananéia a Baia dos Pinheiros, em Paranaguá. As estradas acabaram com a importância estratégica da vila e o canal artificial contribuiu para o inicio da erosão que continua engolindo Ararapira até os dias atuais. Foi o início do êxodo de moradores.

“Vila Fantasma”

Um vulto de mulher vestida branco acena para as embarcações no alto da encosta. Gemidos são ouvidos na velha delegacia tomada pelo mato. Na igreja, o sino badala sozinho, ressoando pela vila. Crianças enterradas no cemitério vagam pela vila. Estórias de assombrações não faltam na “Vila Fantasma”, como se convencionou chamar Ararapira, apresentada assim até mesmo no site do ICMBio, órgão do governo federal. Recentemente, um apresentador de um programa de cunho sensacionalista transmitido por uma rede de emissoras, com sede na capital paulista, chegou a gravar um especial no local, com entrevistados dizendo que a trilha que leva ao cemitério “tem cheiro de sangue”.
“É um desrespeito total aos nossos antepassados e a nós”, diz Hamilton Xavier, presidente da Associação dos Moradores do Marujá, comunidade da Ilha do Cardoso em São Paulo, ex-morador de Ararapira. Para ele, as estórias são todas inventadas. “O pessoal que mora aqui sempre está por lá para visitar a igreja ou o cemitério e nunca viu nada disso. É uma exploração da boa fé das pessoas e não contribui em nada para preservação do lugar”, disse.
Vivendo atualmente no Ariri, um bairro vizinho a Ararapira, um ex-morador, que prefere não ser identificado, explica as origens das assombrações. “Como o local está vazio, muitos aventureiros que invadem a área começaram a espalhar que era uma Vila Fantasma. Violaram túmulos e ossadas ficaram à mostra. Alguns barqueiros de Cananéia resolveram tirar proveito da situação para atrair pessoas dispostas a pagar uma viagem até lá. E foram criando as estórias de assombrações”, contou.
O homem, que é pescador, vai detalhando a origem de cada estória. “Em 2000, a última moradora da vila, morreu durante uma viagem à Paranaguá, O barco em que ela estava com o filho, de sete anos, naufragou. É esta a mulher que eles dizem que aparece na encosta. Um desrespeito com os parentes dela. Os túmulos pequenos, não são apenas de crianças. Os moradores enterravam antigamente em cova rasa, a sete palmos abaixo da terra. A terra retirada era depositada na cova ficava uma sobra, devido a presença do corpo, parecendo que era um túmulo de criança. Na delegacia, ninguém ficava mais de um dia. Na cela só ficavam bêbados, liberados depois para curar a ressaca. Então ninguém ia ficar gemendo. Nunca houve tortura ou morreu gente lá”, garantiu. (site Terra)